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Fantano avalia álbuns e músicas em seu canal no YouTube, o The Needle Drop (Jillian Freyer/The New York Times)

Há alguns anos, a banda de noise-rock Daughters, de Rhode Island, teve um sucesso inesperado graças, em grande parte, a um entusiasta careca e divertido na internet.

O grupo havia acabado de lançar o primeiro álbum em oito anos e, embora o peso da música não fosse muito palatável para o público em geral, os ingressos de uma turnê do grupo se esgotaram e a gravadora notou um aumento repentino nas vendas de discos e no streaming, recorda o baterista Jon Syverson.

Syverson, que tinha quase 40 anos na época, recebeu uma mensagem de um primo com metade da sua idade, que tentava explicar animadamente a atenção inesperada. “Meu Deus! O Melon fez uma resenha do seu disco. Ele vestiu a camisa de flanela amarela e deu uma nota 10 de 10!”, o jovem disse a ele.

Syverson não fazia ideia do que o primo estava falando. Mas, para determinado subgrupo de fãs jovens de música, era como se os Daughters tivessem ganhado na loteria.

O influenciador em questão é o youtuber Anthony Fantano, de 34 anos, que faz resenhas de discos e músicas há mais de uma década em seu canal, o The Needle Drop, com 2,26 milhões de inscritos, o que talvez o torne o crítico de música mais popular da atualidade.

Em milhares de vídeos em várias plataformas, incluindo uma parceria recente com o site de streaming da Amazon, o Twitch, Fantano angariou uma legião de seguidores e imitadores com seus apelidos (“Melon”, ou “melão”, é uma homenagem à sua careca pálida), piadas internas e “Easter eggs” (vestir a camisa de flanela amarela é sinal de um bom disco, a vermelha é sinal de uma bomba). Dessa maneira, ele ajudou a levar uma forma de arte impopular e em via de extinção – a resenha de discos – para um novo meio e um público mais jovem.

Aprendendo com seus vloggers de videogame prediletos e com o crítico de vinhos e empreendedor Gary Vaynerchuk – bem como com os debatedores políticos e filosóficos que foram fundamentais para definir a estética própria do youtuber –, Fantano se viu na vanguarda de uma onda crescente de vídeos de reação e crítica sobre temas diversos, de comida a esportes, passando pelo viral dos gêmeos que ouviram Phil Collins pela primeira vez.

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O youtuber Anthony Fantano em Colchester, nos Estados Unidos (Jillian Freyer/The New York Times)

Mas poucas pessoas conseguiram criar um império independente como Fantano, em sua casa suburbana em Connecticut, com produtos exclusivos, muitos assinantes na plataforma de crowdfunding Patreon e (antes da pandemia) aparições ao vivo, além de conversas intensas em fóruns on-line, ódio em redes sociais, memes e vídeos intermináveis sobre suas postagens. E, em um clima difícil para a imprensa, com o setor das revistas de música praticamente destruído, blogueiros veteranos passando por dificuldades e sobreviventes como as revistas “Pitchfork” e “Rolling Stone” sujeitas ao controle de grandes corporações, o modelo independente de Fantano é o caminho cada vez mais provável para o futuro.

“Obviamente, muito do que existe por aí foi muito influenciado pela minha estética, meu estilo, minha interpretação”, disse o vegano e abstêmio Fantano, verborrágico como em seus vídeos, durante uma conversa recente via FaceTime.

Ele destacou que, embora não tenha sido o primeiro youtuber a falar longamente sobre música, foi meticuloso na criação de seu canal, estudando a concorrência, incluindo sites que ainda dependiam da palavra escrita e mantendo uma abordagem simples, íntima e gregária. “Durante um bom tempo, eu dormia e acordava pensando no YouTube. Escolhi conscientemente fazer algo que parecia muito simples para mim, porque imaginei um modelo fácil de imitar, para que outras pessoas se envolvessem no diálogo”, explicou.

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Com mais de 900 milhões de acessos a seus vídeos em diversas contas do YouTube, Fantano, que atua tanto como artista quanto como crítico, se tornou uma referência entre criadores de conteúdo das gerações Y e Z dedicados à música, que refinam e ampliam, em plataformas como o TikTok, o formato criado por ele.

A música e estudante universitária Dev Lemons, cuja conta @SongPsych faz críticas curtas por meio de notícias e teoria musical, chamou Fantano de “uma celebridade e uma autoridade entre meus colegas. Conheço muitas pessoas que simplesmente não ouvem um disco se Anthony Fantano confirmar que não vale a pena”, contou, destacando que antes ela consultava a revista “Pitchfork”, mas agora prefere ver resenhas em vídeo. “Há muito mais personalidade desse jeito”, resumiu.

Outro músico e universitário, Ethan Fields, de 20 anos, aproveitou o tempo de isolamento para angariar fãs no TikTok interpretando canções populares no estilo de outros músicos. Segundo Fields, Fantano foi uma influência inicial importante, com seus conteúdos divertidos e suas informações privilegiadas.

“Acho que não existe outra pessoa com o mesmo alcance que ele. Se, na rua, você pedir a pessoas de menos de 25 anos que citem um crítico de música atual, elas vão responder ‘Anthony Fantano’”, disse Fields. (Ao ser perguntado sobre o nome de outro crítico musical, Fields parou por um instante. “Deixe-me ver… honestamente, estou tentando pensar. Como se chama aquele cara da ‘Rolling Stone’ que adora o U2? David Fricke?”)

NEEDLEDROP COSCARELLI ART BSPR 100620 O crítico de música no YouTube Anthony Fantano

O crítico de música no YouTube Anthony Fantano (Jillian Freyer/The New York Times)

A velha guarda não aceitou Fantano de braços abertos. Robert Christgau, crítico de rock há mais de meio século, se referiu à carreira de Fantano como “uma conquista”, mas acrescentou que não “assiste” a críticas – prefere lê-las. Por e-mail, Christgau acrescentou: “Literalmente, nunca penso em Anthony Fantano e provavelmente acharia difícil me lembrar do seu nome. Não o estou criticando, porque não conheço bem seu trabalho.”

Ao longo dos anos, Fantano se profissionalizou – e agora trabalha com um chefe de edição, um editor, um agente e um advogado especializado no setor de entretenimento (cujo filho é fã de Fantano) –, mas o estilo dos vídeos praticamente não mudou desde que ele criou o The Needle Drop, em 2009, com um pano de fundo simples e uma imagem da capa do disco sobre o ombro direito. Essa consistência, fruto de seu vício em trabalho, foi fundamental para o sucesso de Fantano.

Filho de pais separados e criado em Connecticut, Fantano começou sua jornada musical com o rádio e a MTV, antes de se apaixonar por hard rock e nu metal por volta da virada do milênio, quando ficou obcecado por bandas como Korn e Slipknot. Quando era adolescente, adorava junk food, videogames e o compartilhamento de arquivos. Já chegou a pesar mais de 130 quilos, mas perdeu quase metade do peso depois que começou a ouvir punk e ir de moicano à escola.

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Na Universidade Estadual do Sul de Connecticut, Fantano se dedicou à estação de rádio da universidade e acabou se tornando o gerente geral. Depois de se formar em plena recessão, Fantano trabalhou em uma pizzaria e foi estagiário na rádio pública da cidade, na qual escreveu durante um curto período sobre música e apresentou um podcast com poucos ouvintes, mas que antecipou o The Needle Drop. Mas uma manchete escrita por um editor para um de seus textos irritou os fãs de Bob Dylan, o que o convenceu a trabalhar por conta própria.

Aquela foi a era de ouro dos blogs de música, e Fantano viu que as coisas estavam mudando para os meios tradicionais. Contudo, ele teve dificuldades de atrair o público para seu site pessoal, até que teve uma ideia para se destacar: “É só ir para a frente da câmera.”

Nos últimos tempos, é a imagem de Fantano como alguém de fora que continua a definir os rumos de boa parte de seu trabalho, mesmo depois de ter se tornado um nome importante e extremamente popular. Ainda assim, ele não mantém quase nenhum relacionamento com as gravadoras e a indústria fonográfica em geral, e disse que já abriu mão de muitas ofertas para se juntar a uma marca maior: “Não quero vender a alma para ganhar basicamente o mesmo que ganho agora.”

Quanto ao futuro da crítica musical e seu papel nela, Fantano deu de ombros. Será que ele se importa? “No sentido tradicional, provavelmente muito pouco”, respondeu, depois de uma longa pausa.

Fantano acrescentou que, quer se trate de posts no Instagram, vídeos no TikTok ou threads no Twitter, “o mais importante para mim não é a forma que essa crítica assume, ou que veículo a traz até mim, mas se ela é feita com perspicácia, paixão e de maneira cuidadosa”.

 

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