As instituições que compõem o Sistema S são conhecidas por abrigar dirigentes que se perpetuam no poder por prazos dilatados e quase intermináveis. Há vários exemplos ao longo da história recente, mas nesta semana surgiu outro candidato a estender seu poder por mais alguns anos. O dirigente da vez é Robson de Andrade, da Confederação Nacional da Indústria, cujo mandato iniciou-se em 2010 e já passou por duas reconduções. A última, de 2018, seria finalizada em 2022. Seria. Mas um grupo de presidentes de federações regionais circulou uma carta, dias atrás, propondo que o mandato de Andrade seja estendido até 2024.

O texto é assinado por dirigentes de entidades do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, que explicam a proposta da seguinte maneira: “O propósito desta extensão é possibilitar a continuidade do trabalho para fortalecimento da indústria nacional e para a geração de empregos e aumento de renda para os brasileiros”.

Trata-se de um exemplo típico do que vem ocorrendo há anos no sindicalismo patronal. Andrade ocupa o cargo há dez anos e tem mais dois à frente da CNI. Ao pedir a extensão de seu mandato, será que em 2024 não requisitará outro prazo extra?

Há vários exemplos de longevidade no poder dentro do Sistema. Numa outra entidade, por exemplo, a Confederação Nacional do Comércio, Antonio Oliveira Santos ficou no poder por 38 anos. Qual o orçamento da instituição? Mais de R$ 10 bilhões anuais. No caso da Fiesp e do Ciesp, Paulo Skaf comanda as duas instituições desde 2004 e já fez pelo menos um malabarismo estatutário para se manter no poder após dois quadriênios.

A extensão de mandatos ocorre com o apoio de sindicalistas patronais que vão encontrando caminhos dentro da lei para esticar as gestões. No caso das confederações, uma forma de se manter a fidelidade dos presidentes de federações dos estados mais pobres da União é distribuir politicamente as verbas. Com isso, conquista-se fidelidade e os objetivos de poder são atingidos. Sobre a iniciativa de Robson Andrade: a justificativa dada pela carta de seus apoiadores é um tanto intrigante. Em tese, o propósito de qualquer gestor de uma entidade dedicada à indústria teria de ser fortalecer o setor e gerar empregos.

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Embora algumas dessas entidades tenham sistemas de compliance para prestação de contas, não há exatamente um mecanismo de governança, tão típico no setor privado, que imponha limites ao número de reeleições ou determine uma idade máxima de aposentadoria compulsória.

Essas regras exigem nas corporações privadas para que exista uma renovação e oxigenação das estruturas de poder. Mas, nos sindicatos patronais, a regra vigente parece ser a da extensão contínua de mandatos.

Curiosamente, a missiva pede que, além de esticar o mandato de Andrade, se convoque uma reunião para tomar algumas providências. A primeira delas: “Implantar regras de compliance e governança em todo o Sistema Indústria”.

Trata-se de algo surpreendente. Isso quer dizer que, até hoje, a CNI não conta com compliance e governança? É o que sugere a redação do documento, que também elenca outras pérolas. “Promover a transformação digital do Sistema Indústria” é uma delas. Com um orçamento de respeito, como é que a CNI até hoje não conseguiu digitalizar seu próprio sistema?

Se a CNI admite em documento assinado por seus dirigentes que está defasada, o mesmo não ocorre em outras unidades do Sistema. A própria Fiesp e o Sebrae são exemplos de instituições que utilizam a tecnologia para atingir seus propósitos e têm mecanismos de gestão considerados compatíveis com os tempos atuais.

No início do mandato de Jair Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes falou em passar a faca no Sistema S, com o intuito de reforçar o caixa da administração federal e diminuir o orçamento de instituições cujos cofres estão sempre abarrotados. Mas estamos caminhando para o final do segundo ano da gestão Bolsonaro e nada. Além dos mandatos longevos, os dirigentes do sistema contam também com sete vidas, pois se nada aconteceu até agora, dificilmente ocorrerá nos próximos anos.

Se hoje, na política, se discute os malefícios da reeleição, talvez fosse o caso de se pensar o mesmo dentro dessas entidades – ou, pelo menos, instituir um número máximo de mandatos, forçando o surgimento de novas lideranças e modernizando toda essa máquina bilionária.

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