diretor inovação MIT Luis Perez

 (Luis Perez-Breva/Divulgação)

A pandemia do novo coronavírus forçou dezenas de empresas a repensar seus negócios. Durante esse processo, as micro e pequenas empresas tiveram dificuldade para adaptar seu funcionamento a um novo normal muito mais dependente de tecnologia.

Para ajudar os empreendedores que estão digitalizando os seus negócios agora, a MIT Alumni of Brazil, uma associação de ex-alunos brasileiros do Massachusetts Institute of Technology (MIT), realiza um evento na próxima segunda e quarta-feira, dias 21 e 23 de setembro. No webinar, professores da universidade americana e executivos de empresas como Mercado Livre, VTEX, Loggi e Magalu vão dar dicas de como as pequenas e médias empresas podem navegar de forma mais tranquila no mundo online.

Luis Perez-Breva, diretor do programa MIT Innovation Teams, será um dos palestrantes. O empreendedor espanhol é especialista no processo de inovação tecnológica e autor do livro “Innovating: A Doer’s Manifesto for Starting from a Hunch, Prototyping Problems, Scaling Up, and Learning to Be Productively Wrong”. Em uma entrevista exclusiva à EXAME, ele falou sobre processos de inovação em tempos de crise, suas expectativas sobre o legado da pandemia e o que espera do mercado de startups nos próximos anos.

Veja abaixo os principais pontos da entrevista:

O senhor poderia nos dar uma prévia do que vai falar no webinar de segunda-feira? Existe um melhor caminho para os pequenos negócios se digitalizarem?

Vivemos em um tempo estranho. As pessoas perceberam que precisam inovar, caso contrário, não vamos sobreviver enquanto espécie. Mas se você olhar tudo que foi escrito sobre inovação ao longo dos últimos 20 anos, parece que nada disso se aplica ao presente. 

As pessoas falam muito sobre desenvolver produtos mínimos viáveis (MVPs, na sigla em inglês) e fazer processos de transformação digital. Todas essas coisas são muito atrativas e interessantes, mas difíceis de serem implementadas no cenário atual, em que temos poucos recursos disponíveis e precisamos ser muito criativos. 

Olhando para o que sabemos sobre inovação, sobre como a nossa espécie inovou no passado, aprendemos que é preciso começar com o que se tem. Inovação não é sobre ter ideias disruptivas, não é sobre transformação ou mudança, é sobre se perguntar questões básicas: “o que eu tenho? e como eu posso usar isso de um jeito novo para criar um novo negócio?”. 

As pequenas empresas estavam acostumadas a operar localmente, mas agora o nosso bairro é o Zoom — a distância para falar com uma pessoa aqui de Boston e alguém aí do Brasil é a mesma pela internet. Então, ao pensar em mudar para o mundo digital, é preciso se esquecer das palavras-chave que fazem tudo parecer tão complicado. O segredo é não pensar que é uma transformação, você não está eliminando o que já tinha, mas sim reimaginando ou reutilizando uma pequena parte do seu negócio. 

É assim que toda a inovação acontece, na verdade, tanto a disruptiva quanto a incremental. O que são ótimas notícias, porque não acho que ninguém tenha a energia para criar eventos que vão mudar o mundo a partir de suas casas durante o isolamento social.

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Quão importante é o dinheiro no processo de inovação?

Inovação requer dinheiro. Mas a questão sobre quanto dinheiro é necessário é mais difícil de responder. Por exemplo, o primeiro laser criado era um projeto paralelo de uma pesquisa industrial feita em um laboratório na Califórnia. Ao mesmo tempo, vários outros laboratórios estavam recebendo milhões de dólares para pesquisar o laser e tiveram sucesso também. Então, dá para olhar a história do laser de duas formas. Uma é que nós, enquanto sociedade, investimos muito dinheiro e descobrimos o laser. Ou você pode ver a história do primeiro laser criado e pensar “esta pessoa fez o laser com 20.000 dólares”. As duas histórias são verídicas. 

O que o senhor pensa sobre o modelo de investimentos em série em startups? 

Acho que é justo dizer que o mundo todo ficou obcecado com startups nos últimos dez anos. Não com inovação ou com novas empresas, mas especificamente com startups. Ter uma startup se tornou algo da moda. 

Eu criei companhias antes e vou continuar criando, mas para mim o processo não é sobre levantar dinheiro, é sobre trabalho duro. O que temos visto muito na última década é uma grande confusão. Não estou falando sobre o Brasil, porque não conheço o suficiente, mas, nos mercados que eu acompanho, acredito que as pessoas confundiram levantar dinheiro com construir uma empresa. 

Nós temos ensinado as pessoas a criar empresas e a levantar dinheiro, mas não a sustentar um negócio. Na minha opinião, é um grande desperdício de inovação e de talento. A parte boa é que nós fizemos o processo de criar uma companhia, que era incomum há 20 anos, parecer normal. Agora, o que precisamos fazer é ensinar as pessoas a criar empresas de forma eficiente, para evitar o desperdício. 

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O que podemos tirar de positivo desta crise?

Eu estou bastante esperançoso de que vamos olhar a inovação e a criação de novas empresas de uma forma menos frívola depois da pandemia. Tenho visto já o surgimento de mais empresas com propósito. No começo de crises como essa, há pessoas que se veem fazendo trabalhos que importam e pessoas que percebem seu próprio trabalho como algo desimportante. É uma percepção própria, não estou julgando o trabalho de ninguém.

Mas, em geral, quem está no primeiro grupo, trabalhando em fábricas de vacina ou de máscaras, sente orgulho de trabalhar com algo que faz a diferença. As pessoas do segundo grupo, por outro lado, percebem que adorariam estar trabalhando com algo que importa para elas. 

Então, eu acredito que vamos ver uma mudança depois da pandemia. Mais pessoas vão querer ganhar dinheiro e fazer o bem para a sociedade ao mesmo tempo. Costuma-se pensar que são duas coisas separadas, o trabalho e a filantropia, mas percebo que já há um interesse maior em criar companhias que vão fazer bem para as pessoas e que também vão dar lucro. 

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