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Jair Bolsonaro: discurso do presidente lembrou algumas falas de José Sarney durante o auge do Plano Cruzado (Marcos Corrêa/PR/Flickr)

Desde a campanha, analistas políticos tentavam encontrar paralelos em presidentes do passado para definir a personalidade de Jair Bolsonaro. Alguns comparavam o estilo do presidente a Fernando Collor, outros a Jânio Quadros e muitos enxergavam semelhanças entre o mandatário e dois dos generais que comandaram o país entre 1964 e 1985. Mas, na semana que passou, o governo ganhou mesmo tons semelhantes aos da gestão de José Sarney.

O estopim dessa sarneyzação foi a alta do preço do arroz, um dos itens básicos da alimentação do brasileiro. Bolsonaro, em sua fase populista, não pensou duas vezes em jogar para a torcida: reduziu as tarifas de importação do produto a zero e autorizou uma notificação aos supermercados que questiona a remarcação das etiquetas do produto nas prateleiras.

Essa notificação foi expedida pela Secretaria Nacional do Consumidor, órgão ligado ao Ministério da Justiça, de André Mendonça. Mas o presidente foi consultado sobre sua edição e a autorizou. “André Mendonça falou comigo: ‘Posso botar a Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor para investigar, perguntar para os supermercados por que o preço subiu?’. Eu falei ‘pode’. E ponto final”, disse Bolsonaro. “Porque, ao chegar à resposta, pode ser que o errado somos nós. Pode ser o governo, daí o governo toma providência e ponto final”.

Dessa declaração, tira-se duas conclusões. A primeira é a de que o mandatário é um tanto flexível em relação ao princípio de peremptoriedade, já que usa a expressão “ponto final” duas vezes em um breve conjunto de ideias.

Vamos à segunda. O presidente dizia, durante a campanha eleitoral, que não sabia nada de economia – e estava falando a verdade. Há dois culpados para a alta dos preços. Um é geral: a pressão exercida por gastos estatais, aumentando a impressão de meio circulante e elevação da dívida interna, colabora para isso. Mas também temos a alta do dólar, que eleva a cotação de todas as commodities e estimula a exportação de itens alimentícios. A exportações de arroz, por exemplo, dispararam nos últimos meses. Apenas em maio, o registro é de um crescimento de 82 % sobre o volume do mesmo mês do ano passado. Existe, assim, pouca oferta interna para a demanda do mercado nacional.

Por isso, quando somamos esses fatores, o resultado é um só: aumento do preço. Isso nada tem a ver com a ganância dos supermercadistas – eles já estão comprando os produtos com preço elevado dos atacadistas.

O discurso de Bolsonaro lembrou algumas falas de José Sarney durante o auge do Plano Cruzado, em 1986, quando o governo promoveu um amplo congelamento de preços para combater a inflação. Naquela época, o presidente pediu à população que ficasse de olho nas etiquetas e que fiscalizassem o tabelamento – surgiram, então, os fiscais do Sarney. Um deles, inclusive, numa cena que ficou famosa na TV, fechou um supermercado em Curitiba em nome do presidente da República.

Como todos sabem, tabelamento e congelamento são armas inúteis contra a inflação. Mas, naquele longínquo segundo trimestre de 1986, o Brasil foi tomado por uma espécie de histeria coletiva. Quase todos acreditaram nessa lorota e defenderam o indefensável – incluindo alguns economistas premiados (em 1989, eu entrevistaria John Kenneth Galbraith em sua casa ao lado da Universidade de Harvard. Ele, uma dos economistas mais famosos de seu tempo, defendia um novo congelamento de preços, para quebrar a inércia da inflação brasileira).

Qual foi a única voz veemente contra essa sandice? O hoje ministro da Economia, Paulo Guedes, que deu inúmeras entrevistas provando claramente que aquela solução faria água rapidamente. Naquela época, estava no ar a novela Roque Santeiro, na qual havia um papel secundário, de um maluco chamado Beato Salu. O personagem, interpretado pelo ator Nelson Dantas, passava boa parte do tempo gritando pelas ruas: “É o fim do mundo!”.

Como Guedes usava a mesma expressão para expressar sua cólera contra o congelamento, seus detratores aproveitaram a deixa e passaram a chamá-lo de Beato Salu.

O então ministro responsável pela economia do país, Dílson Funaro, era bastante popular em meio ao Cruzado. Tanto que, em determinados momentos, Sarney teve suas crises de ciúme em relação à notoriedade de Funaro. A relação entre os dois começou a se desgastar quando a economia mostrou-se operando por aparelhos. Primeiro, o Cruzado não deu certo; veio, então, o Cruzadinho, também um fracasso. Por fim, o Brasil, sem recursos, teve de pedir a moratória de sua dívida externa. Com os preços sem controle e uma situação econômica severamente criticada, o Planalto começou a fritura ministerial em fogo baixo, até o titular da pasta não aguentar e pedir demissão.

Não deixa de ser uma ironia histórica que o homem forte da economia, nesta fase do governo que é temperado com pitadas à lá Sarney, seja um dos poucos que criticou o Plano Cruzado – o próprio Paulo Guedes. Resta saber, agora, se ele terá o mesmo destino de seu antigo desafeto, Funaro, ou ficará até o final com Jair Bolsonaro.

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