Coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru Eu Wau Wau, Rieli Franciscato

Rieli Franciscato: indigenista havia recebido a informação da aparição de um grupo na zona rural de Seringueiras; morte causou comoção entre servidores e sertanistas (Arquivo pessoal/Reprodução)

Considerado um dos indigenistas mais respeitados da Fundação Nacional do Índio (Funai), o coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau, Rieli Franciscato, morreu com uma flechada no peito nesta quarta-feira após encontrar com índios conhecidos como “Isolados do Cautário”, na região conhecida como Linha 6, no município de Seringueiras, em Rondônia.

A informação foi confirmada ao GLOBO por várias entidades indigenistas, entre elas a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, que atua na região. A entidade afirma que os indígenas isolados não sabem distinguir protetores de inimigos. “O território deles está sendo invadido e eles estão tentando sobreviver”, diz nota.

Rieli chegou ao local após moradores terem avisado a Funai que um grupo de indígenas isolados havia parecido próximo de suas casas, na zona rural de Seringeurias. O GLOBO teve acesso a um áudio de um dos policiais que acompanharam Rieli e viu o momento em que ele foi flechado.

“Ele subiu num morro que tinha e de repente a gente começou a ouvir baruho de flechas. Foi neste momento que ele deu um grito, arrancou a flecha do peito e voltou para trás correndo, conseguiu correr uns 60 metros e já caiu praticamente morto. Nosso amigo se foi, infelizmente”.

Em nota enviada ao GLOBO, o ex-presidente da Funai Sydney Possuello afirmou que perdeu um grande amigo e criticou a política indigenista do atual governo.

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“Recebi agora a notícia do falecimento do sertanista, meu companheiro e amigo Rieli Franciscato. A circunstância da sua morte demonstra o descaso e a irresponsabilidade do governo Bolsonaro com relação às questões que envolvem os índios e os funcionários das Frentes de Proteção Etno Ambiental, que são a vanguarda dos trabalhos na selva. Rieli pediu auxilio à Policia por que não tinha funcionários para acompanhá-lo”, diz a nota, continuando:

“A culpa da sua morte é o descaso e a incompetência da FUNAI e dos que hoje orbitam em volta desse Presidente da FUNAI e do Coordenador de Índios Isolados. Realmente o governo consegue destruir a FUNAI como instituição, desamparando os funcionários que estão na missão mais difícil e perigosa e, acelerando o processo de destruição dos Povos Indígenas Isolados ou não.”.

A flecha que matou o indigenista media aproximadamente 1,5 metro e era feita de bambu com penas de aves na ponta. O artefato atingiu Rieli no tórax e ele já chegou sem vida ao hospital de Seringueiras, na zona rural de Rondônia. Em áudio obtido pelo GLOBO, o policial militar Paulo Ricardo Bressa relata que escutou o barulho da flecha no peito de Riele.

“A soldado Luciana estava atrás dele e eu um pouquinho atrás dela. A gente só escutou o barulho da flecha, que pegou no peito dele. Aí ele deu um grito, arrancou a flecha e voltou pra trás correndo. Ele conseguiu correr uns 60 metros e já caiu praticamente morto. Nosso amigo se foi, infelizmente”.

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O GLOBO apurou que Rieli tentava impedir um conflito entre os indígenas e moradores da região que invadiram terras próximas à área demarcada pela Funai. Além de evitar que algum tipo de contato fosse feito em meio à pandemia. Os isolados estão entre os grupos mais vulneráveis e podem ser dizimados caso sejam contaminados pela Covid-19.

Tensão marca região

Pela manhã, antes de Rieli ser flechado, um vídeo publicado nas redes sociais mostrou um morador afugentando os isolados a quem chamava de “cambada de vagabundos” e “sem-vergonha”.

“O Rieli chegou aqui, pediu apoio pro sargento, se a gente poderia ir com ele lá, porque lá é uma área de conflito. O sargento liberou a gente pra ir, a gente foi. Quando a gente chegou lá onde eles apareceram, ele entrou em contato com a senhora dona da terra e perguntou se podia dar uma olhada por onde eles tinham vindo”, conta o policial que confirma ser a região uma área de conflito deflagrado por terras.

A morte de Rieli abalou servidores da Funai e referências do meio indigenista que o reconheciam e nutriam muito carinho e respeito por sua dedicação aos povos isolados.

A Funai lamentou a morte do servidor e diz que acompanha o caso. Não há, no entanto até o momento, nenhuma ação planejada pelo órgão para tentar impedir um conflito maior na região.

“Rieli dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de proteção desses povos”, diz nota assinada pelo coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, Ricardo Lopes Dias.

A gestão de Ricardo é bastante criticada pelos movimentos indígenas, que o acusam de inércia diante da pandemia de Covid-19 e de trazer riscos para as comunidades por seu envolvimento com missionários.

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