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Mulan: filme estreará na China diretamente nos cinemas, já que Disney+ é proibido (AFP/AFP)

O filme Mulan, lançado na semana passada pela Disney, é alvo de nova controvérsia. Depois de ser questionado por ativistas asiáticos diante da declaração da atriz que faz a protagonista, que criticou os manifestantes de Hong Kong, o filme agora está meio do embate sobre as violações contra a minoria uigur na China.

Durante a exibição na plataforma Disney+, ao final do filme, nos créditos, a Disney dirigia “um agradecimento especial” às autoridades governamentais da região de Xinjiang, noroeste da China. O problema é que é nessa área que ficam alguns dos chamados “campos de reeducação política” dos uigures, segundo associações de defesa dos direitos humanos.

Entre os agradecimentos, aparece a agência responsável pela segurança pública de Turpan, uma cidade em Xinjiang onde fica parte da minoria uigur. O departamento do Partido Comunista Chinês na região também recebeu um agradecimento.

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Procurada pela AFP, a Disney não se pronunciou. Não está claro no que as autoridades chinesas da região ajudaram na produção ou quais cenas foram filmadas no local. A tendência, segundo o Washington Post, é que a Disney tenha usado somente filmagens de montanhas e cenários da região, ou apenas que sua produção tenha feito algo no local. O filme foi gravado majoritariamente na Nova Zelândia.

A Anistia Internacional publicou em seu Twitter citando o caso e pediu à Disney que mostre seu relatório de direitos humanos.

The new Mulan movie was filmed in the region where China has Uyghur internment camps and there are “special thanks” for a Xinjiang government agency in the credits.@Disney, can you show us your human rights due diligence report?https://t.co/7IaPsYQtKW

— Amnesty International (@amnesty) September 8, 2020

A questão dos uigur é criticada há mais de uma década. Grupos de defesa dos direitos humanos, jornalistas e acadêmicos denunciam a internação de membros da minoria muçulmana uigur, assim como detenções em larga escala e esterilizações forçadas.

Segundo disse à AFP Isaac Stone Fish, da Asia Society, um centro especializado nas relações entre Estados Unidos e China, o filme é “sem dúvida o longa-metragem mais problemático da Disney” desde “A Canção do Sul” — quando foi lançado em 1946, o filme recebeu muitas críticas pela divulgação de clichês racistas e por pintar de maneira idílica as plantações onde os escravos eram obrigados a trabalhar no sul dos Estados Unidos.

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O artista chinês dissidente Badiucao, que mora na Austrália, fez desenhos de Mulan em meio a um campo de concentração uigur e em um tanque no famoso episódio da Praça da Paz Celestial em 1989. O artista pediu o boicote do filme.

Baduicao acusa a Disney de adotar um “discurso duplo”, aderindo a movimentos contra a injustiça social no Ocidente, como MeToo e Black Lives Matter, enquanto fecha os olhos para a forma como a China viola os direitos.

#BoycottMulan is a MUST!

After support HK police brutality, @Disney is pro genocide on #Uygur !The final credits of #mulan  thank Chinese government security agency in Xinjiang , where about 1m people are sent to concentration camps for torturing and forced slave labor. pic.twitter.com/Vuz8ny78oy

— 巴丢草 Badiucao (@badiucao) September 8, 2020

 

Antes, o filme estava sendo alvo de críticas porque a atriz chinesa Liu Yifei, que vive a protagonista Mulan, criticou no ano passado as manifestações em Hong Kong.

“Eu também apoio a polícia de Hong Kong. Agora podem me atacar”, escreveu. “Que vergonha para Hong Kong.” Hong Kong vem sendo palco de protestos massivos há mais de um ano, desencadeados por uma nova lei de segurança nacional que aumenta o controle da China sobre o território. A declaração da atriz fez ativistas pedirem boicote ao filme, que é uma versão em live action da animação do conglomerado.

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A Disney e outras gigantes do cinema global enfrentarão cada vez mais questionamentos do tipo à medida em que tentam fazer seus filmes palatáveis para a audiência no mercado de cinema chinês — que já é o segundo maior do mundo e pode, em breve, ultrapassar os Estados Unidos.

Em agosto, Hollywood foi acusada, em um relatório publicado pela organização Pen America, de autocensura para permitir que seus filmes entrem no gigantesco mercado chinês.

Mulan, em especial, custou à Disney 200 milhões de dólares e teve o adiamento lançado repetidas vezes em meio à pandemia. Embora tenha sido lançado no Disney+ com uma taxa de aluguel específica só para o filme, de quase 30 dólares, a Disney deve sofrer para recuperar o investimento. Nessa linha, ficar fora do gigantesco mercado chinês não é mais uma opção para a indústria cinematográfica.

No mercado chinês, o próprio Disney+ não está disponível, mas Mulan será lançado nesta semana nos cinemas, uma vez que a pandemia na China já está relativamente controlada.

(Com AFP)

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