Fatia de estrangeiro nas ofertas de ações cai

Dinheiro: peso de estrangeiro nas operações costumava ficar entre 40% e 50% em anos de forte atividade (nito100/Thinkstock)

A participação do investidor estrangeiro nas ofertas de ações do Brasil — os IPOs e as subsequentes, das empresas já listadas na bolsa — caiu drasticamente no acumulado deste ano, até agosto. Dos 55 bilhões de reais movimentados em ofertas em 2020, apenas 28% foram adquiridos por fundos internacionais. Em 2013, essa fatia era de 44%, para os 23 bilhões captados com vendas públicas de ações naquele ano. Os percentuais variam bastante de ano a ano, mas em períodos de forte atividade de mercado ficam, em geral, entre 40% e pouco acima de 50%.  Os dados foram organizados pela própria B3 para apresentação na Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).

Esse resultado reflete dois movimentos: a redução do interesse pelo Brasil no mercado internacional (por uma combinação de motivos que vão desde câmbio, Amazônia e contas públicas) e, principalmente, um aumento da poupança interna e das aplicações destinadas à bolsa. Para entender no detalhe não há outra forma a não ser observar uma coleção de números combinados.

A indústria nacional de fundos de investimento cresceu quase 200% na última década, passando de 1,9 trilhão de reais em recursos aplicados, ao fim de 2011, para 5,65 trilhões de reais ao fim de julho deste ano. E, junto com ela, cresceram também as aplicações em ações. Contudo, a distribuição do dinheiro por tipo de ativo quase não se alterou. E é daí que vem o otimismo com o mercado acionário, o estímulo aos IPOs e a pressão para que a bolsa brasileira tenha mais empresas listadas — hoje são apenas 330. A percepção é que há muito dinheiro ainda a ser direcionado para ações.

A migração de recursos da renda fixa para a renda variável se tornou mais intensa somente a partir do ano passado, quando a Selic se consolidou em apenas um dígito sem temores de um repique. E continua acelerada em 2020, apesar da pandemia e do baque na atividade econômica — até mais do que em 2019. Mas os fundos de ações e multimercados continuam com a mesma fatia do bolo hoje que tinham há cinco anos: cerca de 30% do patrimônio da indústria. Para especialistas, idealmente, essa soma deveria ser de 50%. Daí tanta fé na liquidez: se uma fração já fez o que fez, o ajuste é gigantesco.

A captação líquida de fundos de ações e multimercados no ano acumula quase 134 bilhões de reais (comparado a um saldo positivo de apenas 11 bilhões de reais na renda fixa), de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades Financeiras e do Mercado de Capitais (Anbima).

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Além disso, a taxa básica de juros em 2% ao ano trouxe um impulso para as pessoas investirem diretamente na bolsa, sem passar pelos fundos, com uma força impensável até pouco tempo atrás. O número de contas de pessoas físicas em corretoras quase dobrou nos primeiros oito meses de 2020, em movimento histórico, superando 3 milhões. No total, os pequenos investidores incrementaram suas aplicações em bolsa realizadas diretamente em 53 bilhões de reais neste ano, até o fim de agosto — volume totalmente inédito.

Mesmo assim, a poupança cresce

Mas, não bastasse a migração das aplicações de renda fixa para variável, o aumento da educação financeira da população também deveria levar a uma esperada migração de recursos da poupança. É o que se estimava. Mas que nada!!

O total aplicado na boa e velha caderneta está no valor mais alto de sua história, à beira de 1 trilhão de reais — 987 bilhões de reais ao fim de agosto. A captação do mês passado ficou próxima de 11,5 bilhões de reais. O número de contas com mais de 100 reais subiu de 69 milhões, em dezembro, para 86 milhões, em junho.

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É por isso também que os mais otimistas com o mercado acionário falam que o movimento de agora é só o começo. Por essa lógica, depois da poupança, o investidor migra para fundos conservadores e, aos poucos, conforme melhora sua educação financeira, chega até a renda variável. Para isso ser verdade, porém, será determinante que não haja muitos sustos no meio do caminho. O preço dos ativos em bolsa e a quantidade de ofertas de ações muitas vezes é apontado como um sinal de bolha no mercado. Os especialistas, em sua maioria, refutam essa percepção: falam em sobrevalorização de ativos específicos, mas não de algo generalizado.

Os CPFs na bolsa

A crescente participação direta das pessoas físicas na bolsa faz com que esse tipo de investidor assuma um papel relevante no dia-a-dia do mercado. Do volume total negociado na B3, no acumulado do ano até agosto, o pequeno investidor representou 21,1% — é a primeira vez desde que esse tipo de aplicação passou a ser estimulada que alcança esse tamanho. Nos últimos três anos, essa participação estava em torno de 18% e há cinco anos, não alcançava 14% — e o volume negociado por dia era menor.

Já o investidor estrangeiro, embora decrescente ao longo dos anos, ainda tem fatia relevante do giro do pregão: 46% na média acumulada do ano, ante 45% em 2019. Em 2015, esse percentual estava em quase 53%. Para esse cálculo, tanto faz se a operação é de compra ou venda.

O total movimentado cotidianamente pelo investidor institucional local caiu em relação ao ano passado, mas ainda dentro da média dos últimos cinco anos: está em 28% ante 31,5% no ano passado.

A pessoa física, se continuar aumentando sua participação, tende a ocupar uma fatia cada vez maior do pregão, isso porque o aplicador individual movimenta mais sua carteira do que os fundos de investimento, que montam posições de mais longo prazo.

É importante destacar que essa análise não contempla as ofertas de ações, apenas o mercado secundário. Em períodos de grande atividade do mercado, como o atual, é comum que os fundos dediquem parte da carteira para aquisição de novos ativos, o que reduz parcialmente a atividade no pregão.

 

 

 

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