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Magnamed: projeto só se concretizou com a ajuda de empresas amigas como Suzano, Klabin, Positivo, Flex, GM, Embraer e White Martins (Germano Lüders/Exame)

Teve final feliz a epopeia da pequena fabricante de ventiladores pulmonares brasileira que, do dia para a noite, foi alçada a protagonista do plano do governo federal de combate à pior pandemia em um século. Depois de ter a fábrica invadida por um vice-prefeito desesperado que confiscou respiradores, de precisar contrair empréstimos milionários e de mobilizar empresas amigas como Positivo, Suzano, General Motors, Klabin, Flex, Embraer e White Martins para ajudar na busca mundial por fornecedores de insumos, a Magnamed multiplicou sua produção mensal por 13 e concluiu no final de agosto a entrega de 5.060 ventiladores pulmonares – usados no tratamento hospitalar da infecção covid-19 – para o Ministério da Saúde.

Wataru Ueda, presidente e um dos três fundadores da Magnamed, que tem sede em Cotia, na Grande São Paulo, faz questão de dividir o sucesso da empreitada com as companhias que se juntaram em uma força-tarefa para ajudar a fabricante de respiradores. “Não fosse a colaboração de um time fantástico de empresários, um projeto tão importante para o país teria grandes dificuldades em decolar”, disse Ueda em comunicado à imprensa. “Com certeza essa parceria está ajudando a preservar muitas vidas no Brasil.”

O contrato, assinado em 8 de abril, previa a compra de 6.500 respiradores, mas foi reduzido a pedido do governo. A Magnamed, que até 2019 fabricava cerca de 150 ventiladores pulmonares por mês, aumentou sua capacidade para 2.000 equipamentos nesse intervalo de tempo para atender a demanda no meio do surto do novo coronavírus, causador da infecção covid-19.

Quando aceitou o desafio, a Magnamed foi checar com os fornecedores de peças se poderiam entregar um volume maior do que o usual. Naquele momento, os poucos produtores de componentes nacionais estavam sendo disputados pelas fabricantes de respiradores. No grupo de WhatsApp que mantém com os colegas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), onde se formou em 1982, Ueda mencionou então o projeto e as dificuldades que vislumbrava no caminho.

O amigo Walter Schalka, presidente da Suzano resolveu ajudá-lo acionando a rede de representantes da fabricante de celulose no exterior para encontrar mais fornecedores. Sua concorrente Klabin, que também tem fortes laços comerciais com a China, reforçou a busca e disponibilizou embalagens. A fabricante de computadores paranaense Positivo usou seus contatos para procurar os componentes usados na placa de controle dos ventiladores, além de dar apoio nas negociações de preços e prazos de pagamento. A fabricante de aviões Embraer usinou 8.000 peças de aço em um fim de semana, cobrando apenas o valor da matéria-prima e a GM ajudou no redesenho da linha de montagem da Magnamed em Cotia.

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Mas só a fábrica de Cotia não era suficiente para atender a demanda. A Magnamed acabou contratando a Flex (antiga Flextronics), multinacional americana especializada na produção terceirizada de equipamentos eletrônicos, que tem uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo, para conseguir chegar na meta inicial de 6.500 equipamentos. A fabricante de gases White Martins forneceu oxigênio para o teste dos respiradores na fábrica da Flex (que também está produzindo para outras duas empresas nacionais).

O passo seguinte foi encontrar recursos para comprar os insumos necessários à produção. Faturando cerca de 40 milhões de reais por ano, a Magnamed operava com um capital de giro apertado. A Suzano lhe emprestou 10 milhões de reais sem custo e com 45 dias para pagar. A Magnamed procurou depois o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), seu investidor desde o início, e não obteve nem 1 real porque o banco não tinha uma regulamentação para esse tipo de financiamento.

Mas o BV (o antigo Banco Votorantim) lhe deu um empréstimo-ponte de 20 milhões de reais sem aval — a instituição criou um fundo especial para financiar as fabricantes nacionais de respiradores durante a pandemia. No fim, o Ministério da Saúde adiantou 129 milhões dos 322,5 milhões de reais do contrato.  A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acelerou o processo para certificar a fábrica da Flex, e a Polícia Federal faz a escolta dos produtos finalizados. Com todo esse apoio, a Magnamed conseguiu vencer  percalços como o confisco de 35 respiradores, em 28 de março, pelo vice-prefeito de Cotia. (Os equipamentos foram devolvidos por ordem da Justiça.)

Ao fazer o pedido para a Magnamed, o Ministério da Saúde lançou mão de um dispositivo da Constituição Federal que lhe garantia o direito de comprar toda a produção da empresa. Agora que o compromisso está cumprido, a fabricante está livre para vender seus respiradores nos mercados interno e externo. A Magnamed avalia que há municípios brasileiros e diversos países que ainda não foram totalmente atendidos em suas necessidades para o combate da covid-19. A empresa já exportava para cerca de 60 países, mas chamou a atenção de novos clientes em potencial na pandemia.

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