Iguá faz pedido de IPO

Obra de expansão da operação em Cuiabá: investimentos de R$ 400 milhões para dobrar cobertura até 60% da população (Divulgação/Divulgação)

Na fila de IPOs que cresce em velocidade estonteante na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) há uma estreante de um mercado para lá de tradicional: a Iguá Saneamento. Será a primeira companhia 100% privada desse setor na B3. Na bolsa já estão Sabesp, Sanepar e Copasa — todas estatais. É também o primeiro IPO de infraestrutura básica em muito tempo, em meio a tantas promessas de disrupção, omnicanalidade e outros tantos palavrões da vida moderna.

A companhia fez hoje a atualização dos documentos na (CVM) para retomar sua oferta inicial, que chegou a ser discutida com o mercado no segundo semestre de 2019, mas não saiu. Quando fez a tentativa no ano passado, a Iguá buscava ser avaliada em 4 bilhões de reais e pretendia realizar uma operação da ordem de 1 bilhão de reais, parte primária e parte secundária. A avaliação foi considerada um tanto salgada na época. Depois de muitas rodadas com investidores naquele momento e algumas mais recentemente, o mercado acredita que a Iguá entendeu que poderá ser avaliada por um montamente ligeiramente menor. A oferta propriamente, contudo, pode ser maior do que a planejada no ano passado, para reforço aos projetos de expansão.

A companhia é controlada pela gestora IG4, de Paulo Mattos, e pelo fundo canadense AimCo. Juntos, somam 88% do capital e não planejam vender ações. A expectativa — mas ainda sem confirmação — é que o BNDES, dono de quase 11% do capital,  poderá se desfazer dos papéis, e mais alguns pequenos outros minoritários.

Os encontros com os investidores devem esquentar a partir de agora. Para quem atua na transação, a expectativa é que a oferta possa ocorrer entre outubro e novembro. O coordenador líder é Bradesco BBI e o sindicato inclui Itaú BBA, BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da Exame), Santander e Bank of America. À frente das apresentações estará o novo presidente do negócio, Carlos Brandão, que até o fim do ano passado foi diretor financeiro da Oi, com papel fundamental no processo de recuperação judicial da tele. O executivo assumiu a posição na Iguá no início de julho.

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A Iguá é a terceira maior empresa privada do setor de saneamento do país, com 7 milhões de pessoas atendidas, em 37 cidades, por meio de 14 concessões e quatro parcerias público-privadas (PPP). No primeiro semestre deste ano, teve receita líquida de 323 milhões de reais, um aumento de 6,3%. O Ebitda somou 145 milhões de reais, ante 130 milhões de reais — em alta superior a 10%.

O dinheiro da parcela primária tem destino certo: crescimento. Embora seja a palavra mágica para o mercado ter interesse, em saneamento há uma dificuldade para se estimar o retorno de novos projetos de investimento tão elevado. “A parcela já em operação é fácil de dar preço. O desafio está no novo”, explica um investidor que já avaliou o negócio.

A companhia já tem na mira três projetos-alvo: a licitação da operação de Alagoas, um projeto de 2,5 bilhões de reais, e mais duas PPP, no Espírito Santo e em Mato Grosso Sul. O interesse está principalmente em oportunidades de explorar o sistema de abastecimento de água e de captura de esgoto. Mas a companhia também ficará atenta a oportunidades de fusões e aquisições e nas privatizações que virão.

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Em entrevista concedida ao EXAME IN no fim de junho,  Paulo Mattos, sócio fundador da IG4, deixou claro seu plano de futuro para a Iguá: ser a Equatorial do saneamento. Mattos viu a Equatorial nascer dentro de sua antiga casa, a GP Investimentos. Para ele, em um mercado que será inundado de oportunidades, faz muito sentido ter como alvo ser uma companhia de capital pulverizado e com uma cultura própria forte. A Equatorial é uma empresa com receita anual pouco abaixo de 20 bilhões de reais e avaliada em mais de 24 bilhões de reais na B3.

Desde que assumiu a antiga CAB Ambiental em um processo de reestruturação de dívida do grupo Galvão, a gestão da IG4 já realizou 900 milhões de reais em investimentos na empresa. Desse total, 400 milhões de reais foram destinados à operação de Cuiabá, a maior da companhia. Com isso, a cobertura de esgoto na cidade dobrou de 30% para 60% da população e 16 toneladas de esgoto deixaram de ser jogadas nos rios da bacia do Pantanal todos os dias. A tecnologia que utiliza em sua expansão usa placas a base de aço e carbono, com instalação de 25% a 30% mais barata. O sistema em módulos gera uma economia de custo com energia entre 5% e 10% e tem um tempo de instalação até 50% menor, o que contribui para ampliar a margem da geração de caixa.

Depois do segundo trimestre, a Iguá concluiu duas emissões de debêntures que totalizam 880 milhões de reais — a maior delas, de 620 milhões de reais e prazo de 14 anos, foi a primeira colocação de porte de um título de infraestrutura com selo sustentável. Antes da emissão de debêntures, a Iguá terminou junho com 1,15 bilhão de reais de dívida líquida, equivalente a 3,8 vezes o Ebitda acumulado em 12 meses. Os papéis alongaram o perfil dos compromissos.

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