Bolsonaro sem máscara junto ao público em evento em Ipatinga

Bolsonaro, como Lula, é carismático e domina a língua do povo. Como o ex-presidente, adora o contato popular, o que em plena pandemia gerou críticas (Marcos Corrêa/PR/Divulgação)

O governador de São Paulo, João Doria, declarou poucos dias atrás, que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro é resultante do programa de distribuição emergencial de recursos, o chamado coronavoucher. “A população brasileira é uma população pobre e se empobreceu ainda mais na pandemia. Quando você coloca um auxílio emergencial com R$ 600, isso muda a perspectiva de vida dessas pessoas.

Estamos falando de 90 milhões de pessoas recebendo R$ 600 por mês. Não estou dizendo que não mereçam receber, mas este gesto, sendo do governo federal, contribuiu para melhorar a avaliação do presidente da República”, disse. Para o governador, este fenômeno é “sazonal” e deve passar assim que o programa de assistência acabar. Talvez Doria esteja usando seu “wishful thinking” para analisar o cenário político.

Bolsonaro começou a colher frutos em popularidade quando deixou de se estranhar diariamente com os poderes Executivo e Legislativo, aplainando a estrada de solavancos constantes pela qual transitava a administração federal. Aqui e ali, o presidente continua a disparar farpas contra a imprensa – mas esse tipo de discussão não parece gerar uma grande comoção entre os eleitores. Ao apaziguar ânimos e deixar de criar crises entre poderes, o Bolsonaro percebeu que seu cotidiano ficava mais fácil e que sua imagem melhorava junto ao público em geral.

Outro movimento importante, iniciado antes da pandemia, foi o aperfeiçoamento do Bolsa Família, com a introdução do décimo-terceiro salário. Esse upgrade assistencialista acabou por turbinar a importância do coronavoucher de R$ 600 e de seu sucedâneo de R$ 300 (ou qualquer que seja o valor aprovado pela equipe econômica). Todos os programas serão concentrados em uma só iniciativa, batizada de “Renda Brasil”. Com isso, o governo retira de cena um nome ligado ao PT (Bolsa Família) e passa a capitalizar sozinho o apoio popular a este tipo de iniciativa. Lembram-se do PSDB, que vivia dizendo (com alguma razão, diga-se) que o Bolsa Família havia sido criado na gestão de Fernando Henrique Cardoso? Talvez tenhamos militantes petistas, daqui a dois anos, tendo de reforçar que o Renda Brasil foi concebido sob a bandeira de Luiz Inácio Lula da Silva – pois, como sabemos, boa parte do eleitorado tem memória curta.

Bolsonaro, como Lula, é carismático e domina a língua do povo. Como o ex-presidente, adora o contato popular, o que em plena pandemia gerou críticas por parte de jornalistas e de autoridades sanitárias – até porque em muitas das aglomerações que causava o presidente não usava sem máscara de proteção. O resultado desta sequência de contatos físicos foi uma bola cantada: a contaminação pelo coronavírus.

Se Bolsonaro conseguir banir de seu discurso elementos de torpeza, como fazer apologia da tortura ou de torturadores, diminuir a importância das mortes geradas pelo coronavírus (algo que atinge familiares das vítimas da pandemia) ou minimizar os danos provocados à Floresta Amazônica, poderá ver sua popularidade crescer ainda mais. Mas essa possibilidade dificilmente ocorrerá, pois a agressividade politicamente incorreta é um elemento atávico à personalidade do presidente.

Em um campeonato de populismo, Bolsonaro ganha com facilidade de Doria, mas talvez tenha dificuldades com Luciano Huck, cujos esquetes de assistencialismo fazem sucesso na TV. Em sua versão candidato, Huck tem um discurso voltado contra as elites. Sua proposta para combater as desigualdades no país, por exemplo, é aumentar os impostos dos mais ricos. Em um artigo publicado no site do World Economic Forum, no início do ano, ele citou como intervenções necessárias à agenda brasileira “assegurar uma melhor captação de impostos, reduzindo subsídios aos mais ricos”. O nome desse jogo é passar a conta para os empresários, uma ladainha que se escuta desde os tempos de Getúlio Vargas. Um dos princípios do liberalismo, como se sabe, é a diminuição do Estado e a consequente redução de impostos. Portanto, Huck pode ser definido de várias formas, menos como liberal. Quem tiver interesse em conferir o artigo de Luciano Huck, é só clicar aqui:

O problema de Huck, ao investir nesta direção, é que no ano de 2022 o terreno do populismo poderá estar totalmente preenchido por Bolsonaro. Teoricamente, uma antítese ao presidente precisaria ter um foco contrário ao populismo. A dificuldade em utilizar essa estratégia é o fraco potencial de angariar votos. O risco de Doria, se pretender enveredar por este caminho mais racional, é oferecer ao eleitor uma candidatura nos moldes de Geraldo Alckmin. Por enquanto, ele permanece sozinho nessa estratégia. O governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, está fora do jogo. Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, ainda não tem o mesmo cacife do colega paulista. E ainda não se tem ideia de como o nome de Ciro Gomes chegará em 2022 – ou quem será o representante do PT nas urnas.

A guinada populista do presidente é um movimento que não foi antecipado por Huck, Doria e a esquerda. O ritmo de viagens e de inaugurações mostra que, para Bolsonaro, o futuro já começou. Se levarmos em consideração que a economia sofreu sobremaneira com o coronavírus, o mandatário preferiu o caminho fácil dos investimentos estatais, do assistencialismo e da geração urgente de empregos. Resta saber como vai compatibilizar tudo isso com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Enquanto não se vê a solução para uma equação indigesta (gastar mais sem ultrapassar o teto de gastos), o presidente se entrega a uma agenda frenética de eventos, dando atenção ao Nordeste.

No fundo, Bolsonaro está seguindo a cartilha de Lula e faz o PT provar do próprio veneno. Conseguirá se manter nessa estrada até 2022? Façam suas apostas.

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