imagem30-08-2020-19-08-49Fotos: Paulo H Carvalho / Agência Brasília

“Nem tudo o que é torto é errado. Veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado”. O verso é do poeta, ecologista e dono de viveiro, Nicolas Behr, 62 anos.

Natural de Cuiabá (MT), chegou em Brasília em 74, e conhece, como poucos, a flora e a fauna locais. Para o escritor, o verde é essencial para a obtenção de uma qualidade de vida melhor além de assimilar a integração entre o concreto e a natureza.

 “As pessoas que vivem aqui, quando passam por um lugar arborizado se sentem muito melhor. Quem não tem esse contato com o verde, vê que Brasília é uma região privilegiadíssima em termo de arborização. É um grande mostruário de diversidade da fauna e da flora brasileiras”, observa.

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Árvores: das podas às compostagens

“A arborização urbana deve ser vista como saúde mental, a busca pelo equilíbrio psíquico”, defende. “As plantas são anti-estressantes”, reforça.

Para replicar essa alegria do poeta Behr a mais de três milhões de habitantes do Distrito Federal, o GDF investe para manter cerca de 5 milhões de árvores espalhadas pelas 33 regiões administrativas. São aplicados, todos os anos, mais de R$ 40 milhões, que proporcionam novos plantios e manutenção da área verde.

Com a experiência de quem deu aula de engenharia florestal na Universidade de Brasília (UnB) por 33 anos, Manoel Cláudio da Silva Júnior, 61 anos, desde 2018 aposentado, sabe muito bem quais são os benefícios que uma cidade bem arborizada pode trazer para a população.

Além de reduzir a temperatura e aumentar a umidade do ambiente, elas funcionam, estrategicamente, no combate ao aquecimento global. Mas o melhor é o efeito transformador de acalmar o ser humano. “Há vários estudos que mostram a influência da natureza no comportamento das pessoas, em lugares onde tem mais árvores os índices de crimes são menores”, aponta o acadêmico.

Arquiteta urbanista da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do DF (Seduh), Sílvia De Lázari também defende que a arborização é determinante na redução de “ilhas de calor urbano” e na absorção de poluentes atmosféricos, além de importante aliada para o bem-estar das pessoas nas grandes metrópoles.

“As árvores são uma expressão da natureza nas cidades, essenciais para a criação de vivências significativas, reduzindo stress e propiciando benefícios psicológicos”, acredita.

Patrono do nosso verde

imagem30-08-2020-19-08-51Chefe do Departamento de Parques e Jardins (DPJ) da Novacap, Raimundo Silva fala sobre a responsabilidade e a missão de cuidar de toda essa estrutura verde do Distrito Federal.

“É um desafio diário, onde focamos em manter, repor e arborizar as cidades do DF para que alcancem o patamar do Plano Piloto, uma região administrativa com arborização já consolidada”, enfatiza.

O responsável por fazer do DF um dos lugares mais ricos em espécies do Cerrado, quase um santuário verde em meio a uma verdadeira selva de pedra, foi o engenheiro agrônomo Francisco Ozanan.

Ele dedicou 40 anos de sua vida para embelezar o lugar com tipos que pudessem nascer e resistir ao clima árido e ao calor peculiar local. Morto em 2016, aos 72 anos, o cearense, conhecido como o “pai dos ipês” de Brasília, deixou como legado à frente do DPJ cerca de 300 espécies de plantas.

A ideia é que todo esse esforço em manter e preservar o verde na região seja lembrado com a criação de uma praça no Lago Norte. “O Ozanan foi o segundo chefe do departamento, em substituição ao primeiro, que foi Estênio Bastos. Brasília tem hoje a arborização famosa graças a ele, só estamos dando continuidade ao seu trabalho”, comenta Raimundo Silva. “Se tudo der certo o projeto deve estar pronto em breve”, antecipa o presidente da empresa, Fernando Leite.

Pomar comunitário

imagem30-08-2020-19-08-53Assim como o poeta Nicolas Behr, o advogado Claudismar Zupiroli, 60 anos, é um amante das árvores nativas do Cerrado, sobretudo, as frutíferas.

O amor é tanto que ele, filhos de pais que lidavam com agricultura familiar no Paraná, fez questão de cuidar de um pomar no Parque Multiuso da Vila Planalto, localizado entre a L4 e o Palácio da Alvorada. É a Vila Frutas.

O projeto, então autorizado pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), começou com 600 mudas plantadas de espécies frutíferas nativas raras e exóticas como araçá, jabuticaba, carambola, jambo, seriguela, entre outras. O objetivo é, com o apoio dos moradores da cidade, sejam plantadas cerca de mil árvores frutíferas no local até o fim do ano.

“A proposta não é plantar frutas comuns, mas aquelas que a população não conhece, ter no mesmo lugar, para deleite da comunidade, escolas ou turistas, espécies que não se acha facilmente por aí”, conta. “Essa é minha contribuição para a cidade, para o meio ambiente e, se puder, num contexto de projeto para a comunidade, um presente meu, para Brasília”, comenta o voluntário da natureza que, assim como a capital do país, sopra 60 velhinhas este ano.

Para a administradora do Plano Piloto, Ilka Teodoro, desde o ano passado responsável pelas áreas de parques urbanos da Vila Planalto, o gesto do advogado Claudiosmar Zupiroli é de uma grandeza singular e demonstração de respeito à natureza.

Segundo ela, o contato com a natureza e a possibilidade de comer fruta direto do pé é renovador e uma ótima estratégia de saúde e bem-estar para a população. “Ele é uma pessoa dotada de muita humanidade e generosidade”, agradece. “Seu projeto é uma escola de botânica a céu aberto, que muito contribuirá para qualidade de vida e aprendizado da comunidade da Vila Planalto e de todo o DF”, acrescenta.

* Amanhã (segunda, 30), leia a terceira reportagem da série – De olho no futuro ambiental: 120 mil árvores até 2021

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