Gregorio Duvivier fala sobre Day Trade

Gregorio Duvivier: informar e fazer humor não atividades são excludentes (Porta dos Fundos/Divulgação)

A bolsa é pop. Pop não se acha no dicionário. Mas ninguém tem dúvida de que pop é o popular mais do que conhecido: está na moda. Além da fama óbvia ali na Fintwit — a comunidade financeira que troca opiniões e farpas no Twitter — já foi parar nos vídeos da influencer Gabriela Pugliesi, já foi chamada de cassino pelo Felipe Neto (que se retratou depois) e agora o day trade foi tema do Greg News, o programa semanal de Gregorio Duvivier produzido pela HBO. Não é para menos: o número de contas de investidores habilitados a operar diretamente na bolsa subiu de 1,6 milhão em dezembro para 2,8 milhões em julho.

O objetivo do vídeo  — e do programa — é informar com humor. As coisas não são excludentes, segundo comenta Duvivier em uma rápida entrevista ao EXAME IN. Ele é dessas figuras difíceis de definir. Tem porção humorista, porção colunista, porção jornalista — isso, para simplificar muito. No mercado — esse ambiente confuso que reúne um mundo de gente igual, mas diferente que vive de fazer o sistema financeiro girar e funcionar  — a incursão de Duvivier caiu surpreendentemente no gosto de muitos. “Nunca pensei que fosse concordar com ele, mas eu concordo”, foi uma expressão usada por mais de um participante do tal “mercado”.

O “nunca concordar” vem do fato de Duvivier ser percebido como ideologicamente alinhado à esquerda. O vídeo “Day Trade”, distribuído no sábado passado, dia 22, tem quase 720 mil visualizações no YouTube. E o concordar está nas críticas a respeito de as pessoas físicas decidirem se arriscar em operações que desconhecem, sem suficiente informação para isso. “A gente vê gente jovem apostando como quem brinca num bolão de amigos”, comenta o humorista.

O papo com o EXAME IN, que inicialmente foi planejado como algo para dar sequência ao humor, terminou por se transformar em um debate sobre o uso ético do dinheiro.

Duvivier contou que decidiu abordar o assunto do day trade quando viu muita gente próxima começar a se envolver com bolsa. “Estava intrigado por ver tanta gente ao meu redor brincando de bolsa. Digo brincando porque a relação das pessoas era essa. Entrou num lugar de aposta.”

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No vídeo, Duvivier ironiza todo tempo com o hábito do mercado de usar termos e nomes em inglês e glamourização criada em torno do mercado de ações. Questionado se o problema é investir em bolsa ou fazer day trade, ele não titubeia: “O buy and hold pode, claro. A gente faz essa diferenciação no vídeo, inclusive. É assim que as pessoas ganham dinheiro na bolsa. Mas o problema está no day trade”, diz e enfatiza que as novas tecnologias e plataformas de investimento — no vídeo ele cita a americana Robinhood e a brasileira Warren — tentam transformar isso em uma “diversão” e que, muitas vezes, o discurso da igualdade de acesso traz para bolsa quem tem poucos recursos para poupar.

Apesar de ser a crítica mais comumente usada, para Duvivier a bolsa é bastante diferente de um cassino. “Além do risco de quebrar a pessoa, aqui você quebrar o sistema.” Por quebrar o sistema, ele se refere aos efeitos que as movimentações de mercado têm sobre a economia real, uma vez que as ações são de empresas que empregam pessoas e produzem bens e serviços.

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“A democratização da especulação é muito perigosa”, afirma em tom de crítica à facilidade que faz tudo parecer um jogo e ao crescimento desse movimento de dicas e recomendações sobre bolsa fora de um ambiente profissional. “Dica de investimento é uma cilada. Porque quem fala sobre investimento tem sempre uma dica interessada”, opina.

A preocupação de Duvivier é com o aumento da presença de pessoas muito jovens ou que tenham pouca renda disponível e decidem correr o risco do mercado acionário sem se dar conta do quanto isso é arriscado de fato. Ambos os crescimentos – de jovens e de tíquetes menores – são verificados em pesquisa realizada pela própria B3 e apresentada em março. “O que eu explico é que a bolsa premia quem não precisa de dinheiro. Quem precisa de dinheiro, vai tirar no momento errado porque precisa. Quem não precisa do dinheiro, não vai tirar.”

Ele contou que tratar o assunto, tão sério, com humor não foi difícil nesse caso. “Nesse tema havia um manancial. Às vezes, o riso vem de você apenas mostrar o que as pessoas estão fazendo”, comenta, lembrando de trecho em que coloca vídeo do “trader” influencer Diego Aguiar, que costuma ostentar uma vida de luxo e mulheres e no qual ele diz ter acordado com um alerta de uma operação, perto do meio-dia, já com lucro de mais de 900 reais.

Duvivier destaca que a decisão da pauta e o resultado final são fruto de um debate intenso de toda a equipe, com tem três humoristas, quatro jornalistas e ainda a direção e a equipe de checagem. Segundo ele, também foram feitas diversas entrevistas pelo time de jornalistas, além de muita pesquisa. A produção do programa foi algo que chamou atenção dos profissionais que assistiram ao programa. “Day Trade” foi o 20º episódio da quarta temporada do programa — que já acumula um total de 92, desde a primeira safra.

Roberto Rios, vice-presidente corporativo de produções originais da HBO Latin America, conta que o assunto se encaixou exatamente nas pretensões do programa, que são trazer o debate e a informação com humor, mas sem entrar em ideologias. A HBO participa desde a pauta até a edição final, o que inclui um time de advogados para lidar com tudo que envolve a atuação editorial. “Nossos advogados são muito dinâmicos. Estão aqui para proteger o projeto editorial. Não são do tipo que só tem duas respostas: não faça isso ou eu vou te processar”, conta, em tom descontraído. O executivo diz estar satisfeito por estar ajudando a formar no Brasil um conceito consolidado nos Estados Unidos, que é conhecido como “fair use”. Trata-se da liberdade de uso de conteúdos disponíveis em vídeos, filmes e outros dentro de processos de comunicação.

Na avaliação de Duvivier uma das melhores definições de mercado financeiro foi cunhada pelo britânico John Maynard Keynes, um dos economistas mais influentes do século XXI e que defendia uma atuação mais forte do estado para regular as forças de mercado: “O mercado financeiro é como um concurso de misses. Você tem de votar não na mais bonita, mas naquela que você acha que as pessoas vão achar mais bonita”.

Duvivier acha que é possível falar de ética e dinheiro junto e que o melhor a ser feito — “como uma dica de felicidade, não de investimento” e para criação de um mundo melhor — é que as pessoas invistam naquilo que elas acreditam, em empresas que elas acreditam. “Não apenas como investidor, mas como consumidor também”.

“É meio hipócrita falar que você vai colocar dinheiro na Vale porque quer que ela produza mais minério de ferro. Você quer é tirar mais dinheiro do investimento nela. Assim que ela começar a desvalorizar, você vai tirar o dinheiro — que é justamente quando ela, provavelmente, mais vai precisar do seu dinheiro”, exemplifica.

Duvivier gosta de debater o tema. Mas tem um passo que ele ainda não dá: falar da gestão de seu patrimônio. Quando questionado, deixa claro, com certa dose de indignação, que não gosta e não fala. “Prefiro falar de sexualidade a falar de dinheiro. É a coisa mais pessoal que tem. É como perguntar a cor da minha cueca.” Sobre isso, se limita a dizer: “eu não especulo e isso basta.” Para ele, dinheiro está atrelado à produção de algo real.

Confira o episódio Day Trade aqui:

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