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Trabalhadores em prédio destruído em Beirute: explosão no começo de agosto matou ao menos 181 pessoas (AFP/AFP Photo)

Desde que a explosão de agosto destruiu estruturas da casa de sua família em Beirute, Basam Basila tem resistido à pressão de um proprietário de um edifício próximo que tenta comprar esse imóvel histórico, passado de pai para filho.

“Ele quer que eu venda a casa para demolir” e construir outro prédio, conta o homem de 68 anos, em sua casa no bairro de Monot.

A explosão, causada por uma grande quantidade de nitrato de amônio armazenada no porto de Beirute, causou 188 mortes e devastou áreas inteiras da capital libanesa, aguçando o apetite dos tubarões imobiliários.

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De acordo com o último balanço das autoridades neste sábado, sete pessoas ainda estão desaparecidas há mais de três semanas após a gigantesca explosão.

Como Basila, outros habitantes das ruas atingidas – especialmente nos bairros de Mar Mikhael, Gemmayzé e Monot – e autoridades locais lamentam a ganância de quem quer se “aproveitar” da tragédia para prosperar nos negócios.

O mesmo possível comprador, que comprou o andar térreo da casa na esperança de adquirir o restante, já havia feito uma oferta tentadora a Basila.

“Ele me disse ‘você vai acabar cedendo’”, relata o motorista de táxi.

Para incentivá-lo a sair, o investidor agora se abstém – segundo ele – de “recuperar o andar térreo”, fragilizado pela explosão.

Mas “eu nasci nesta casa e meu pai nasceu nela (…) Não posso morar em outro lugar”, ressalta Basila, que critica o Estado: “Sem ajuda não dá para restaurar nada!”.

Dos 576 edifícios históricos de Beirute inspecionados pelo Ministério da Cultura, 44 têm risco de desabamento e 41 estão expostos ao risco de desabamento parcial.

Após a explosão, quando os cidadãos vieram relatar os danos em suas casas, Bechara Ghulam, o prefeito do distrito de Rmeil, no norte de Beirute, contou ter recebido a visita de um desses “corretores”, que se propôs a comprar os imóveis para pessoas físicas que não queriam se identificar.

“Ele mostrou sua vontade de comprar casas danificadas pela explosão e sua disposição para ‘pagar qualquer quantia’ que os proprietários quisessem”.

“Eu respondi que não venderíamos”, explicou Ghulam.

A tentação é forte em um contexto de grave crise econômica no Líbano, que vive uma desvalorização da libra libanesa, uma inflação galopante e uma escassez de dólares. Muitos libaneses vivem na pobreza.

Órgãos políticos e religiosos alertaram contra esses “abutres” rondando a capital libanesa, e os ministérios da Cultura e da Economia proibiram a venda de propriedades danificadas até que o trabalho de restauração seja concluído.

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