Foto: Joel Rodrigues / Agência BrasíliaDe acordo com Luciano Martins, a exposição agropecuária da Granja do Torto será no formato digital. E a Festa do Morango, em Brazlândia, provavelmente será no sistema drive-thru. Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília

A área rural do Distrito Federal sofreu os efeitos da pandemia causada pelo coronavírus e precisou se reinventar para comercializar os produtos da agricultura familiar em época de feiras fechadas. Os produtores passaram a fazer delivery, vender pela internet e participar de eventos on-line, estimulados pela Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (Seagri).

“Uma das medidas que nós tomamos foi colocar no decreto de restrição das atividades a possibilidade do produtor fazer drive-thru, o que não existia. Também estimulamos que eles encontrassem outros canais para a comercialização dos produtos. O que mais deu certo foram os que ofereceram seus produtos na internet, pelo WhatsApp, fazendo as sacolas de produtos e entregando em casa”, afirma Luciano Mendes, secretário-executivo de Agricultura.

Em entrevista à Agência Brasília, o secretário fala dos efeitos da pandemia no campo, conta que os setores de produção de hortaliças, principalmente folhosas, e flores foram os que mais sofreram e detalha as medidas adotadas pelo governo para socorrer os produtores, como a prorrogação do vencimento das parcelas de financiamentos. Luciano Mendes garante que a área rural do DF tem potencial para gerar emprego e renda e colaborar para a retomada da economia do DF pós-pandemia. “O Distrito Federal está entre os dez maiores PIBs agropecuários do país. Estamos falando de um espaço rural relativamente reduzido, onde se produz muitas riquezas de forma muito eficiente”, diz. Confira os principais trechos da entrevista:

Como foi o impacto da pandemia na zona rural?

Este ano foi atípico e dentro do ambiente rural do DF não foi diferente. Logo que o governador editou o primeiro decreto suspendendo as atividades, todas as feiras foram fechadas, tanto do atacado quanto do varejo. Os produtores familiares que comercializam seus produtos nesses ambientes tiveram um impacto imediato. O segmento que mexe com flores também teve um impacto grande porque flor é um produto muito perecível. O Ceasa chegou a ficar fechado na primeira semana e depois a gente conseguiu sensibilizar o governo que o ambiente de atacado não era possível fechar. O Mercado das Flores também fechou. Uma das coisas que a gente fez aqui, e essa ação vai perpassar o período de pandemia, é a compra de frutas e verduras dos produtores para a distribuição na rede de assistência socioassistencial.   

A produção agrícola, que era destinada às escolas públicas, com a pandemia, seguiu outro destino. Qual? O governo conseguiu manter o compromisso de compra dessas produções?

A gente não estimula que o produtor venda apenas para os canais oficiais. Até porque o governo compra de forma sazonal e o produtor precisa vender o ano todo. Queremos que o produtor se desenvolva e tenha outros canais de comercialização para o mercado privado. O que a gente faz, nas instituições públicas, é aproveitar parte da produção, adquirir o que ele tem mais dificuldade de vender, por exemplo.

Uma das medidas que tomamos foi colocar no decreto de restrição das atividades a possibilidade de o produtor fazer drive-thru, o que não existia. Também estimulamos que eles encontrassem outros canais para a comercialização dos produtos, como o delivery e as tele-entregas.

De que maneira isso é feito?

Nós temos dois programas de compra do produtor: o Pnae, que é para a alimentação escolar, e o Programa de Aquisição da Produção Agrária do DF, que compra produtos para distribuir. O principal deles é o Programa Nacional de Alimentação Escolar. Graças a ele, a Secretaria de Educação, em parceria com a Agricultura, compra das associações e cooperativas e coloca os produtos nas escolas. Este ano, as aulas começaram e foram logo suspensas em março. Assim, os produtores não puderam entregar os seus produtos nesses meses. Uma lei aprovada no Congresso Nacional possibilitou, desde abril, que, mesmo com as aulas suspensas, as secretarias de Educação continuassem comprando dos produtores e montassem cestas verdes para serem distribuídas aos alunos e suas famílias. Isso está acontecendo no DF. É um programa fantástico que possibilita atender os produtores e os alunos. Nós temos 19 cooperativas do DF e do Entorno que estão fazendo isso, as pessoas têm elogiado muito esse programa e é isso que gera emprego e renda no campo.

Como o governo acompanhou os efeitos da pandemia no campo?

Desde o início da pandemia, criamos um comitê integrado entre o poder público e a sociedade. Esse comitê se reuniu diversas vezes com o intuito de avaliar as consequências da pandemia no meio rural. Chegaram muitas demandas aqui para a gente, como a questão do crédito rural. Muitos produtores tinham parcelas vencendo de financiamentos que eles tinham feito no passado. Imagina, chegou o dia de pagamento e não estou vendendo minha produção. Uma das coisas que esse comitê apontou foi a necessidade de prorrogarmos as parcelas. Então, em vários financiamentos, a gente conseguiu prorrogar o vencimento para o final da pandemia, tanto em contratos nossos quanto de outras instituições como o BRB, que criou uma linha de crédito específica para o custeio e capital de giro para os empreendimentos rurais.

Quem foi o mais afetado?

Quem mais sofreu foi o setor de produção de hortaliças, principalmente folhosas, e flores, que praticamente parou de produzir. Os canais de comercialização tradicionais deles diminuíram bastante porque ficaram muito tempo fechados. Uma das medidas que tomamos foi colocar no decreto de restrição das atividades a possibilidade de o produtor fazer drive-thru, o que não existia. Também estimulamos que eles encontrassem outros canais para a comercialização dos produtos, como o delivery e as tele-entregas. O que mais deu certo foram os que ofereceram seus produtos na internet, pelo WhatsApp, fazendo as sacolas de produtos e entregando em casa.

Grandes eventos como a AgroBrasília foram realizados mesmo na pandemia, de uma forma diferenciada, pela internet. Como está sendo essa experiência?

Os grandes eventos presenciais continuam proibidos. A AgroBrasília foi nossa primeira experiência, foi um evento de sucesso, principalmente, por ser pioneiro. As pessoas ficaram satisfeitas.

Teve retorno financeiro?

Teve sim. Muitas empresas que participaram do evento conseguiram vender seus produtos. Máquinas foram vendidas, insumos… Claro, sabemos que o valor foi menor que nos anos anteriores, mas conseguimos realizar a feira. Em razão disso, já planejamos a realização de outros eventos este ano.  Está sendo desenhada a exposição agropecuária da Granja do Torto, que vai voltar a acontecer, de forma digital. Os shows vão ser em forma de live, leilões de gado on-line… Tem também pela frente a Festa do Morango em Brazlândia, que tradicionalmente acontece no final de agosto/início de setembro. Provavelmente, ela será no sistema drive-thru. E vai ter um aplicativo também que a Emater está desenvolvendo que qualquer pessoa do DF pode escolher o morango que o produto vai chegar em casa.

Acompanhamos algumas ações de distribuição de máscaras na área rural. Como a Seagri trabalhou a questão da conscientização contra a Covid-19?

O acompanhamento da contaminação foi feito pela Secretaria de Saúde. Nós estávamos monitorando as consequências na produção agrícola do DF. E nos preocupamos muito em repassar informações para que produtores e trabalhadores pudessem se cuidar também no ambiente rural. Orientamos para a circulação ser reduzida, pedimos que os produtores que tivessem mais de um trabalhador providenciassem uma ferramenta de trabalho para cada um, para que eles não ficassem compartilhando a mesma enxada, por exemplo, e adotassem medidas de limpeza do material. Fizemos e continuamos fazendo a distribuição de máscaras. As mesmas medidas nas áreas urbanas devem ser seguidas na área rural.

Qual a orientação para o uso da máscara na área rural?

Se ele está sozinho não tem por que usar máscara. Agora, se ele tiver em um galpão com outros trabalhadores, deve ter o cuidado de lavar as mãos, usar máscara. A gente não quer nem que ele se contamine, nem que contamine o produto.

A gente sofreu no início, mas conseguimos dar um ritmo para as obras públicas continuarem. Estamos fazendo a manutenção das estradas rurais. Adotamos um novo procedimento este ano, agora nós temos uma grande parceria com o DER-DF em que a gente soma os maquinários e os servidores e trabalhamos de forma simultânea em cinco, seis frentes ao mesmo tempo.

Mesmo com a pandemia, as obras nas áreas rurais não pararam. Vários canais de irrigação foram reconstruídos, as estradas estão sendo recuperadas… 

A gente sofreu no início, mas conseguimos dar um ritmo para as obras públicas continuarem. Estamos fazendo a manutenção das estradas rurais. Adotamos um novo procedimento este ano, agora nós temos uma grande parceria com o DER-DF em que a gente soma os maquinários e os servidores e trabalhamos de forma simultânea em cinco, seis frentes ao mesmo tempo. Os produtores fazem a demanda, a gente coloca no nosso cronograma e ela é atendida até o mês seguinte. Sem falar nos avanços na recuperação dos canais de irrigação.

O que está sendo feito nos canais de irrigação?

Estamos com duas grandes obras com previsão de serem concluídas no próximo mês. Uma delas é no Santos Dumont, em Planaltina, um canal que atende mais de 100 produtores rurais da região. As obras já estão 90% concluídas e é uma parceria entre Caesb, Seagri, Emater, Adasa, Comitê de Bacias Hidrográficas do Paranaíba e a associação local dos produtores. Além dessa, estamos concluindo o Canal de Irrigação de Vargem Bonita, que é outra demanda histórica que atende a cerca de 60 produtores rurais da região, principalmente os de folhosos.

Qual é a situação no Distrito Federal?

No Distrito Federal temos mais de 70 canais de irrigação, totalizando quase 250 quilômetros de tubulação. Nos anos de 2016 a 2018, tivemos sérias crises hídricas no DF que nos chamaram atenção para a importância desses canais. A partir do momento que tivemos longos períodos de estiagem, o nível da água dos córregos baixou muito e a água reservada para os produtores fazerem a irrigação das suas lavouras, também. Da água que entrava no canal, apenas 50% chegava no final para os produtores, um desperdício. Porque a água corria nesses canais a céu aberto, na terra. Estamos canalizando e garantindo que quase 100% da água que entra chegue para o produtor no final. Além disso, temos outras estratégias. Nós adquirimos no final do ano passado 500 kits de irrigação que economizam bastante água. Esses kits estão sendo doados para os agricultores familiares, principalmente aqueles novos agricultores, por exemplo assentados da reforma agrária. 

Como são esses kits?

É uma caixa d’água, com um sistema de bombeamento de água e tubos de gotejamento, que ficam pingando água. Com isso, a pessoa instala em sua horta e faz a irrigação dela. Com ele, é possível irrigar uma área de dois mil metros quadrados. Em vez de o produtor molhar a área toda por aspersão e jogar água onde não precisa, esse sistema molha diretamente o pé da planta, o que é mais eficiente. Com isso, estamos possibilitando 500 famílias a produzirem seu próprio alimento e ainda gerar renda para o caso de comercializarem a produção.

Foram publicados no DODF vários convênios com associações e cooperativas para utilização de equipamentos adquiridos pelo governo. Como essas parcerias com associações de produtores podem potencializar e estimular a produção?

Estamos comprando, por exemplo, caminhões, tratores, implementos para esses tratores, tanques de resfriamento de leite, e a gente não pode entregar isso diretamente para o produtor, nem é nossa intenção fazer isso. A gente faz um chamamento público, dá condições para todas as associações legalmente constituídas participarem e se habilitarem. Aí a gente fornece o equipamento e faz um acompanhamento para saber se ele está sendo bem usado.

O senhor pode dar um exemplo?

No início deste ano, estávamos aqui com seis patrulhas agrícolas. São tratores de 75 cavalos de potência, e cada trator vinha com um kit com uma grade aradora, um distribuidor de calcário, um rotocanteirador, que são implementos agrícolas. Cada patrulha dessas girou em torno de R$ 150 mil. Nesse momento, estamos comprando mais 30 patrulhas, com recursos do governo federal e de emendas parlamentares, e vamos fazer novas chamadas públicas para que os produtores usem esse equipamento por meio das cooperativas. 

Nossos produtores são muito eficientes. Aqui se planta soja, milho, sorgo, frango, suínos e hortaliças diversas, que é o que a maioria dos nossos produtores planta: tomate, pimentão, cenoura, alho, folhosas, morango, banana, abacate. Mais de 40 mil postos de trabalho são gerados por essa produção rural.

Uma comissão foi visitar um abatedouro de aves em Goiás e a Seagri noticiou que tem interesse em construir um abatedouro de aves comunitário no DF.  Como ele vai funcionar e quais as vantagens disso? 

Temos um grande interesse de colocar nas compras públicas, para a alimentação escolar, por exemplo, proteína animal. E os agricultores familiares aqui do DF têm uma grande dificuldade de ter um local onde abater seus frangos. Pensando nisso, a secretaria, junto com diversos parceiros, está desenvolvendo um projeto para a construção de um abatedouro público de aves com capacidade para abater entre 500 e mil aves por dia. Fomos em Goiás visitar um modelo que tem lá para fazer algo parecido aqui. Vamos construir esse abatedouro, mas não vamos operá-lo. Vamos fazer um chamamento público para selecionar uma entidade representativa dos produtores para fazer esse trabalho. É uma demanda antiga e mais uma ação de fomento para os produtores rurais. 

Qual a importância/potencial da área rural do DF? Como a produção agrícola pode ajudar na retomada da economia do DF pós-pandemia?

O Distrito Federal é uma das poucas capitais do Brasil com área rural. São mais de 250 mil hectares onde se produzem mais de 100 produtos diferentes e com muito sucesso. Nossos produtores são muito eficientes. Aqui se planta soja, milho, sorgo, frango, suínos e hortaliças diversas, que é o que a maioria dos nossos produtores planta: tomate, pimentão, cenoura, alho, folhosas, morango, banana, abacate. Mais de 40 mil postos de trabalho são gerados por essa produção rural. A gente acaba não valorizando a área rural porque estamos numa capital administrativa e política que acaba chamando muita atenção. O Distrito Federal, que também é um município, está entre os dez maiores PIBs agropecuários do país. Estamos falando de um espaço rural relativamente reduzido, onde se produz muitas riquezas de forma muito eficiente. 

Como ajudar o produtor rural do DF? Qual apoio eles precisam?

Logo no início da gestão do governador Ibaneis Rocha, tivemos a oportunidade de discutir com as lideranças rurais o que eles mais precisavam do Estado. Para que se gere mais emprego e renda no campo, é preciso fomentar a produção com mais linhas de crédito para os produtores, avançar na regularização fundiária, promover assistência técnica de qualidade a todos os agricultores e ofertar novos canais de comercialização.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here